A arte do desencontro                                   

Em sua estreia literária, psicólogo baiano apresenta personagens deslocados que estranham o mundo onde vivem, se deparando com seus próprios questionamentos existenciais.

O ato de escrever muitas vezes é comparado ao uso artesanal de agulha, linha e tecido. No caso do livro de contos A costura de si [Editora 7 Letras, 139 pg, R$ 19,90], primeira publicação em ficção do psicólogo Márcio Ferreira Barbosa, a comparação é exata e bem vinda desde o título. O lançamento vai acontecer no dia 5 de junho, a partir das 17h30, na Livraria Cultura do Shopping Salvador.

Nascido em Salvador, o autor levou cerca de 10 anos ‘tecendo’ as onze histórias que compõem o volume. “A elaboração não se deu de forma muito linear, só passei a escrever de modo mais intenso a partir do ano 2000”, revela. Aprovado em 2012 entre 154 projetos inscritos em edital promovido pela Secult Bahia, o livro traz narrativas em que se destaca a vinculação problemática e frágil dos personagens ao seu mundo, seja em ambiente rural ou urbano.

Logo na abertura, em “Desnudez”, o leitor é envolvido pela história de ciúme, traição e vingança cujo desfecho mais do que surpreende. Por sua vez, no conto-título, o problema existencial do protagonista é tratado de forma desconcertante. E, nos belíssimos “Naquela manhã” e “O navio Maragojipe”, Márcio acerta a mão ao manter o equilíbrio entre a sensibilidade literária e a precisão para descrever as memórias de uma adolescência que se perdeu no tempo.

Encontros e descaminhos | Autor do ensaio “Experiência e narrativa”, publicado em 2003, o mesmo Márcio que agora apresenta personagens ‘perdidos’ em si mesmos, terminaria se encontrando na ficção. “Em 1999, quando concluí o mestrado em Sociologia, resolvi não prosseguir na carreira acadêmica. Eu estava convencido de que não evoluiria como contista enquanto me mantivesse intelectualmente tão dividido”, constata. Mesmo passando por um momento de séria limitação visual, Márcio desenvolve atualmente um novo livro de contos, gênero que mais admira e que considera sua medida.

A costura de si foi contemplado pelo Edital nº 34/2012 da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

O livro movediço de Manoel Ricardo de Lima

Em Geografia aérea, o poeta piauiense refaz sua trajetória poética, iniciada em 2000, recriando todos os poemas.

Heitor Ferraz Mello, Cult n. 190

Para o poeta Manoel Ricardo de Lima, um livro existe para ser apagado e reinventado. Suas pegadas podem ser rasuradas e mudadas inteiramente, até se transformarem em outra obra, em uma nova existência – até que essa também, a seu tempo, seja novamente mudada. É o que acontece com a sua poesia: mesmo publicada, ela não é definitiva. Ela pode surgir, alguns anos depois, totalmente modificada, ou apenas com pequenas e precisas modificações, virando do avesso seu antigo significado. É como se desenhasse um mapa usando como folha outro mapa anterior, e assim o reajustasse ao presente.

É um pouco este exercício que o leitor encontra em Geografia aérea, volume publicado este ano pela carioca 7Letras. O livro seria uma espécie de reunião da obra poética de Manoel Ricardo, indo do inédito Lâminas, de 2013, passando por Embrulho e Falas inacabadas, ambos de 2000, e chegando a Quando todos os acidentes acontecem, de 2009. Mas não chega a ser isso: com seu incessante caminhar pelo deserto de nosso tempo, o poeta cuida sempre de apagar as pegadas, criar novos abismos, como ele mesmo gosta de dizer. E se dedicou ao jogo de reinventar seus próprios poemas editados, reescrevendo e revisando cada um deles.

Como num “jogo de varetas” (título de um livro de narrativas poéticas lançado por ele em 2012), ele muitas vezes puxa uma varetinha do velho poema e acompanha, deliciado, o pequeno tremor, uma miniatura de tremor de terra, que faz com que as peças encontrem um novo equilíbrio, um novo contato. E se o conjunto vier abaixo, por um movimento mais brusco, parece que o prazer do poeta é maior ainda, já que o velho poema cede espaço a uma nova percepção das coisas.

Claro que com isso ele cria um problema para o leitor: refazer seus passos, para ver de perto o que ele modificou nos seus versos (algo que seu colega de geração e poesia, Carlito Azevedo, também havia feito na antologia Sublunar, transformando inteiramente vários de seus poemas publicados em livros anteriores). E corre o risco de a independência de Geografia aérea ficar um tanto perdida. Neste sentido, o melhor é tomar o livro como todo em si: um novo conjunto, em que poemas antigos e novos se tornam todos contemporâneos, e procuram, de alguma maneira, dar conta da experiência transitória do momento.

Eis o paradoxo que esse poeta brasileiro – nascido em Parnaíba, do Piauí, formado em Fortaleza e em Florianópolis, morador atualmente do Rio de Janeiro, onde é professor universitário – se coloca: dar forma e nome ao transitório, sabendo que qualquer desvio, qualquer acidente, pode transformá-lo em outra coisa: “alguém pode decidir outra/ coisa outro nome apenas porque apertou/ muito bem os olhos”, como ele escreve em “Quase” – um dos mais belos poemas de sua obra. É desses deslocamentos e desvios que sua vida e sua obra se alimentam.

Num ensaio recente sobre a poesia de Aníbal Cristobo (publicado na coleção Ciranda de Poesia, da EdUERJ), Manoel Ricardo de Lima discorre sobre a operação poética de contato e contaminação, em que palavras e ideias se aproximam por afeto e acidente: “Diante de uma mobilidade infinita, porque não é previsível nem planejado, esse duo é todo movediço, circular e tocado por um rodopio incessante da experiência, que é também elíptico, rompido e contínuo”. De certa forma, seus poemas, cuja temática parece se concentrar na construção de um sentido que se dispersa (por isso há tanta areia, tantos vácuos, vazios, e uma bela duna que devora paisagens e casas), trazem de fato essa “mobilidade infinita”. E com isso criam um sistema de “ondulações luminosas/ e a ilusão de produzir no/ espírito de outras pessoas/ algumas fantasias”.

Como diz Annita Costa Malufe, no posfácio dessa edição, nas poesias de Manoel Ricardo há “sempre uma história em jogo, ou muitas, mesmo que não saibamos quais são”, e essas histórias formam uma espécie de enigma sem solução. Ficamos com uma sensação forte e musical de seus contornos, mas tudo escapa, movediço. Como ele mesmo registra em “as fotografias”, “nenhuma/ imagem do presente e sempre/ de passagem a areia do lugar/ que você diz que é seu”. Toda essa impossibilidade de criar imagens fixas – o poeta desconfia delas (“o visível ainda/ não é/ uma imagem”) – faz com que sua poesia afaste o puro registro realista e objetivo da realidade, mas abra, a partir deles, uma brecha pela qual a própria experiência é flagrada em sua instabilidade.

A natureza da linguagem em Garcia Lopes

10.1.2014: Resenha de Estúdio Realidade (7 Letras) no Valor Econômico

Por Heitor Ferraz | Para o Valor

Não deixa de ser interessante que um dos temas caros ao romantismo - o da contemplação da natureza e a fusão do eu lírico com toda essa verdura estilizada - continue tendo, nos tempos de hoje, o mesmo apelo. No entanto, não podemos nos apegar à superfície dos poemas, e cabe perceber que essa natureza contemporânea já nos chega problematizada pela própria linguagem: é uma natureza inventada pela linguagem e ao mesmo tempo questionada por ela e sobre ela. É como se o poeta retirasse de suas observações uma imagem e, num segundo seguinte, já questionasse a validade dessa imagem.

A questão é complexa, não há dúvida. Mas ela está presente no recente livro “Estúdio Realidade”, do poeta paranaense Rodrigo Garcia Lopes, uma das vozes representativas da poesia brasileira surgida nos anos 1990. Há em Garcia Lopes desde o princípio, em “Solarium”, de 1994, uma preocupação com a diversidade formal. Mas já absorvida pela ideia da “poesia pós-utópica”, de Haroldo de Campos, com “a pluralização das poéticas possíveis”. Havia uma procura da expressão que desse conta dos embaralhamentos da vida contemporânea. Nesse sentido, sua poesia trilhou o inusitado caminho da variação formal e da polifonia, cada poema exigindo uma maneira própria de se apresentar na página.

Mas se há um tema bastante recorrente em sua poesia é o da natureza, como motivo de reflexão e criação de novas imagens e questionamentos. Como já havia em “Nômada”, de 2004, essa paisagem descrita pelo poeta é uma espécie de fruto do pensamento (como ele mesmo diz num dos “24 aforismos sobre poesia”, no fim de seu novo livro: “Talvez poemas devessem ser mais que simplesmente escrita sobre experiência, e sim escrita como experiência”). Essa tem sido a sua procura obsessiva: uma expressão que case imagem e pensamento, por meio de uma linguagem que se questione o tempo inteiro, pois ciente de seus desgastes. Como já dizia a crítica Maria Esther Maciel, o poeta “faz do deserto a sua paisagem”.

Ele não procura a natureza em si, mas os seus ecos, pois em seu estúdio a realidade não é um objeto a ser flagrado diretamente. Ele deve ser captado pelas bordas, pelas imagens que proporciona, como se pode ler em “No Estúdio Realidade”, que abre o livro: “Uma relâmpago é flagrado por seus ecos. Santo súbito”. Em outro fragmento lê-se: “A pedra comunica seu sonho de estar sobre o ar da paisagem na parede. O espelho, uma perda”.

Em “Notícias do Mundo”, por exemplo, os versos parecem relatos curtos, quase títulos estilizados de jornais (“Águas muezins no vale das sombras/ África agoniza/ Iraque se debate/ Índia se indigna/ Impérios definham/ Morro em guerra fratricida” etc.). A certa altura, o poeta anota, irritado: “Mentiras, mentiras”. E ao fim, diz: “E, no entanto, eu aqui/ à sombra de um pensamento/ de um amor que seja um lugar,/ um lugar como um pensamento./ Mas isto é ir muito longe:/ Isto é acordar”.

"Estúdio Realidade", cujo título é tomado de um romance de William Burroughs, é um bonito livro, mas exige do leitor uma paciência de detetive (alguns poemas tratam diretamente do assunto). Ele lança pistas e despistes. Cabe ao leitor decifrá-los, não diretamente, mas pelos ecos que criam.


"Estúdio Realidade", Rodrigo Garcia Lopes, 7Letras, 136 págs., R$ 35,00 / AA+ (Alta qualidade)

"O que constitui um autorretrato? Como chamar de eu mesmo um objeto destacado de meu corpo? Este objeto-fora, este rosto, ele vê? Meu rosto está na foto e está também ausente dessa foto. Em que isso implica? Como se dá essa presença do ausente? Posso pronunciar essa frase: próprio rosto? Que propriedade é essa? Me vi, primeiramente, enredada por essas perguntas, dúvidas que surgiam diante de mim a cada passo dado em direção à feitura de um autorretrato. (…) Essas questões são desenvolvidas nestas páginas. Desenvolvidas desta forma: forma de pensamento que se mistura à forma de escrita. Jeito de se estar e se fazer no mundo.”

Raïssa de Góes, Autorretrato

Hoje vou te buscar no aeroporto bege.
Meu coração é um gramado de bezerros no sol.
Meu coração está ligado na fonte de energia de músicas medíocres.
Estou tentando pegar um raio de sol com a boca.

Quero te mostrar meu novo mobiliário.
Quero que o telefone toque, não é você,
você está aqui na cozinha tentando entender a cafeteira,
você está derramando as coisas da sua mochila.

Será que agora você tem penugem dourada?
Será que seu arsenal de palavras carinhosas está vazio?
Lembro que quando te conheci você usava um vestido cinza,
que era também azul, não diferente da água somada ao céu.

Dizem que é difícil pôr coleira em colibri.
Então não sejamos mais auditores um do outro!
Não abaixemos a cabeça perante a tirania dos números!
Saia logo do avião, com sua bolsa coberta de zircônio

cheia de revistas sobre estrelas minguantes.
Estarei te esperando ao pé das escadas rolantes.


- "Carta de apaixonado", de Matthew Zapruder, traduzido por Sylvio Fraga Neto, em O andar ao lado

esse é o segundo banho
que tomei hoje não precisava
tomar esse hoje eu praticamente
acordei e vi TV num
determinado momento andei até a

padaria e comprei meio quilo
de morangos por 99 centavos
eles até que nem estavam
tão azedos se meu corpo
for encontrado quero que seja

forrado e coberto de morangos
quero que meu caixão seja
revestido de morangos quero que
uma escavadeira derrame toneladas de
morangos em cima de mim


- Jon Woodward, traduzido por Sylvio Fraga Neto, em O andar ao lado
jon woodward   poesia   
Você ligou, está no ônibus, no domingo,
acabei de tomar banho e espero você
chegar. Nuvens vêm deslizando do mar,
mas o quarto é delicadamente aceso pela camisa
verde que você me deu. Tenho praticado
uma nova forma de dizer oi e é fantástica.
Você estava tão triste: tchau: eu estava tão triste.
Todas as lojas estavam fechadas mas o céu
era alto e azul. Fui dar uma volta para ver se passava,
mas devo ter andado na direção errada.

- "Poema", de Matthew Rohrer, traduzido por Sylvio Fraga Neto, em O andar ao lado
O drama da vida, ela lhe disse um dia, é que as pessoas sempre querem alguma coisa. O desejo está lá, sempre esteve. As pessoas movem o mundo por ele. Feliz é quem consegue, infeliz quem não consegue.
Já o drama da sua vida é que você não quer nada.

- Bolívar Torres, Não muito
Eu ia passando e me vinha a ideia que Paula gostaria de estar aqui também, ou não sei se a ideia era que eu gostaria que ela estivesse aqui vendo também. Mais tarde eu chegava para o Galocha dizendo: Que é que você acha? Comunhão espiritual não é ter a mesma religião que ela, ou ter as mesmas opiniões que ela. Comunhão espiritual é gostar das coisas pensando que se ela estivesse ali também gostaria. Em resposta dizia o Galocha: Comunhão espiritual é uma expressão que não vai com nada, mas isso que você disse foi muito bonito.

-  Ombros altos, Carlos Sussekind

Carlos Sussekind, Ombros altos

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